Quando o miúdo que adorava tocar já não quer
Há um padrão que se repete em quase todas as famílias que acompanham um filho na música desde os cinco ou seis anos. Perto dos 13, 14, às vezes um pouco mais tarde, chega uma altura em que o miúdo que adorava tocar já não quer. Ou diz que não quer. Ou desliga sem dizer.
Os pais, que atravessaram sete ou oito anos de recitais, ensaios, propinas, ficam desnorteados. Foi todo este investimento para chegar aqui? A tentação de forçar é enorme. A tentação de capitular também. Nenhuma das duas resolve.
Este artigo é sobre o que se passa por trás desse momento, e o que os pais podem fazer para não perderem nem o adolescente, nem a música.
O que muda na adolescência
Uma coisa muda antes de tudo: o adolescente começa a construir identidade em oposição. Isto não é fase caprichosa, é desenvolvimento neurológico e psicológico. O cérebro adolescente está a redefinir o "eu" separado dos pais, e a única forma que tem de o fazer é rejeitar temporariamente o que veio dos pais.
Se a música foi dos pais para o filho, aos 13 anos vai ser questionada. Isto acontece mesmo em famílias em que os pais nunca forçaram nada. O simples facto de "o instrumento estar lá desde sempre" faz dele um símbolo do território adulto que precisa de ser desafiado.
Não é pessoal contra vocês. Não é traição da paixão antiga da criança. É biologia.
Três coisas diferentes que parecem a mesma
Antes de decidir o que fazer, é fundamental perceber o que se está a passar. Três situações muito diferentes chegam com a mesma frase à porta.
Um. "Já não gosto de música."
Quase nunca é verdade literal. Quase sempre significa: já não gosto de tocar como toquei até aqui. Da forma como estudei até aqui. Do repertório que faço. Da relação que tinha com o instrumento quando era criança. O gosto pela música continua lá. Mudou de forma.
Dois. "Não tenho tempo."
Escola cheia, exames, amigos, sono, telemóvel. É verdade que o tempo aperta na adolescência. Mas quase sempre há tempo para outras coisas. O que muda é a prioridade. Aqui não é falta de tempo, é falta de sentido para o tempo que existe.
Três. "Isto não é para mim."
Este é o mais delicado. Pode significar re-escolha genuína (e válida). Pode também significar que a auto-estima musical caiu e o adolescente está a fugir antes de falhar. Perceber qual é destes dois cenários exige conversa, tempo, e provavelmente o professor.
O que fazer nas primeiras semanas
Não decidir nada num dia. A adolescência é território de mudança rápida de humor. Uma decisão sobre continuar ou parar não deve ser tomada numa noite difícil.
Não transformar o assunto em conversa pesada. Uma abordagem tipo "senta-te, temos de falar sobre a música" é o caminho mais rápido para o filho fechar. Melhor conversas curtas, ao carro, no jantar, ao pé do frigorífico.
Não fazer chantagem afectiva. "Depois do que investi..." "A tua mãe fica destroçada..." destrói mais do que qualquer aula perdida. O adolescente vai lembrar-se destas frases anos mais tarde.
Perguntar sem examinar. "O que se passa com o instrumento?" é melhor do que "porque é que já não estudas?". A primeira é neutra. A segunda é acusação.
Uma pergunta que ajuda mais do que parece
Quando a conversa acontecer (e vai acontecer, se lhe derem espaço), há uma pergunta que costuma abrir mais do que qualquer outra:
"Se pudesses tocar exactamente o que quisesses, com quem quisesses, tocarias?"
Muitas vezes, a resposta é surpreendente. Aparece um estilo, uma banda, um instrumento diferente, um formato colaborativo. E aparece a pista para o que precisa de mudar.
A música que serviu aos oito anos não é a mesma que serve aos 14. Se o repertório, o instrumento, o formato não evoluíram, é natural que a relação tenha atrofiado. Não é falta de talento. É falta de actualização.
Papel do professor na adolescência
Nesta fase, o professor deixa de ser figura de autoridade e passa a ser parceiro de projecto. Isto muda tudo.
Um professor que continua a tratar um jovem de 14 anos como tratava aos oito perde-o. Um professor que reconhece a mudança, aceita nova música, discute repertório, propõe conjuntos, acompanha a exploração de outros estilos, mantém o aluno.
Vale a pena, como encarregado de educação, ter esta conversa com o professor. Não a pedir mudança de método. A pedir, sim, atenção à fase.
O papel da família muda também
Aos 6 anos, os pais eram infra-estrutura. Aos 14, passam a ser público. E público que sabe estar no seu lugar.
Isto significa:
- Estar disponível para ir a ensaios, concertos, sessões da banda dos amigos. Sem opinar sobre música.
- Comprar bilhetes para concertos de artistas que o filho segue, mesmo que não faça o vosso género.
- Perguntar de vez em quando, sem obrigar a responder. "Como está a coisa do baixo? Já viram como é que aquela transição fica?"
- Deixar acontecer sem apressar.
Muitas vezes, o adolescente que dizia "não quero tocar" volta ao instrumento aos 16, 17, num contexto diferente. Banda com colegas. Composição própria. Produção musical em software. Não é o mesmo miúdo que tocava clássico aos oito. Mas é a mesma pessoa a continuar a ter música na vida.
E se for mesmo para parar?
Pode ser. E pode ser bom.
Nem toda a gente que estuda música durante a infância vai continuar a estudar música na juventude. Isso não invalida os anos anteriores. A criança que estudou piano dos seis aos 13 aprendeu a estudar, a lidar com frustração, a apresentar-se em público, a fazer parte de conjuntos. Isso fica.
Se depois de conversas, tentativas, pausas, mudança de repertório, o filho continuar a querer parar, deixem parar. Sem punição, sem culpa, sem "então foi tudo em vão". Não foi.
E deixem a porta aberta. Muita gente volta ao instrumento aos 20, 30, 40 anos, com outra relação. A música é longa. A adolescência é curta.
O que fica desta conversa
A adolescência não é o fim de nada. É a passagem obrigatória entre a música dada e a música escolhida. Os pais que atravessam bem esta passagem não são os que insistem, nem os que capitulam. São os que ficam por perto, sem drama, disponíveis para o que vier.
Vale mais um adolescente que volta em silêncio ao instrumento aos 17 do que uma criança de 14 forçada a estudar por dever.
Gabriela Fernandes é pianista, formadora e co-fundadora d'Os Músicos. Trabalha educação musical na infância e adolescência, e forma pais e músicos noutras academias. Mais em gabrielafernandes.pt.
Gabriela Fernandes
Pianista, formadora e cofundadora d'Os Músicos, Academia de Música de Miraflores. Trabalha educação musical na infância e adolescência e forma pais, docentes e músicos em academias e escolas em Portugal.