Aprendizagem musical

A frustração é parte do processo

Há uma frase que os pais dizem, mais ou menos com estas palavras, várias vezes por ano numa academia de música:

Gabriela Fernandes · · 5 min de leitura

"Ele adorava, agora não quer. Não sei o que fazer."

Antes de fazer alguma coisa, é útil compreender o que está a acontecer. A curva de aprendizagem musical não sobe de forma limpa. Há semanas de progresso visível, seguidas de semanas em que parece não haver evolução. Há recuos. Há pequenas crises. Isto é o processo, não é um problema do processo.

Este artigo é sobre distinguir sinais de frustração, saber o que cada um pede, e responder sem transformar o instrumento numa dívida emocional.

Quatro tipos de "não quero tocar hoje"

Um mesmo comportamento pode ter causas muito diferentes. O diagnóstico vem primeiro, a resposta vem depois.

Cansaço real. A criança teve escola cheia, dormiu mal, foi um dia difícil. Não é sobre música. A resposta certa é validar e adiar meia hora. Muitas vezes, depois do lanche, a criança pega no instrumento sem ninguém pedir.

Frustração pontual. A peça está a resistir. A aula correu mal. A colega tocou melhor. Aqui, forçar o estudo é o erro. Melhor conversar sem drama, deixar passar o dia, e reencontrar o instrumento na quinta-feira.

Resistência-hábito. A queixa é diária, recorrente, sem causa concreta. Sempre "não me apetece". Este é o padrão que mais amedronta os pais, mas o que menos preocupa. Resolve-se com rotina curta e presente. Nunca dia zero. Cinco minutos hoje, cinco minutos amanhã. A resistência dissolve-se se não encontrar terreno para crescer.

Falta de sentido. A criança perdeu o "porquê". Não sabe para que serve estudar isto. Não vê para onde vai. Este é o único dos quatro que pede conversa com o professor. É sinal de que algo se descolou na relação com o instrumento e é preciso remendar.

Sem este diagnóstico, os pais aplicam a mesma resposta a situações diferentes. E o que funcionou na semana passada pode ser exactamente o errado esta semana.

O momento crítico: "quero desistir"

Vai acontecer. Pelo menos uma vez. É um dos poucos rituais garantidos de um percurso musical.

Quando acontece, significa duas coisas ao mesmo tempo:

  1. Cansaço acumulado. Precisa de descanso, não de resposta.
  2. Momento de re-escolha. A criança está a pedir para voltar a escolher, agora que já sabe o que é.

A pergunta que quase sempre resolve, sem alarme:

"Queres desistir hoje ou desistir sempre?"

Quase sempre é hoje. E hoje resolve-se com um dia de descanso, uma conversa, um miminho, e amanhã continuamos. Se for sempre, então é uma conversa mais longa, com o professor a acompanhar, e sem drama nem chantagem.

O que evitar

Há três frases que aparecem quase automaticamente na boca dos pais, nestes momentos, e que fazem mais mal do que qualquer aula perdida.

  • "Com o dinheiro que estou a gastar..." Transforma a música em dívida. A partir daí, a criança estuda por culpa, não por gosto. E o gosto não volta.
  • "Se desistes, nunca mais aprendes nada." Drama. A criança sabe que é exagero, mas fica com a sensação de que decisões pequenas têm consequências enormes. Deixa de escolher, começa a esconder.
  • "Ai que bem, então acabou-se." Chantagem afectiva reversa. Coloca sobre a criança a responsabilidade de proteger o desejo do adulto. Não deve estar lá.

Nenhuma destas frases se combate com informação. Combate-se com respiração antes de responder.

O que os pais raramente vêem

Antes de responder à criança, vale a pena lembrar o que se passa por trás daquela frustração:

  • Teve uma aula que a deixou frustrada e vem para casa a fingir que está tudo bem.
  • A professora deu uma correcção difícil e sentiu-se pequena.
  • O colega de instrumento avançou de nível.
  • A peça que estava a ir bem parou de sair, sem se saber porquê.

Nada disto aparece à mesa. Mas está tudo lá quando a criança diz "não quero tocar hoje". A frustração dos filhos, muitas vezes, é o que os pais não vêem. E a serenidade dos pais é o único adulto disponível para atravessar aquilo.

O papel do adulto em momentos difíceis

Não é encontrar solução imediata. É estar por perto, sem alarme, com espaço para a conversa acontecer.

Três posturas simples:

  • Validar antes de propor. "Estou a ver que hoje está a custar." Antes de qualquer sugestão.
  • Perguntar sem examinar. "O que aconteceu?" Sem "como assim?".
  • Manter a rotina, curta. Cinco minutos hoje, para a cadeia não quebrar. Amanhã a rotina normal.

O que a criança precisa nestes momentos é sentir que a família a vê como aluna, não como investimento, e que o instrumento faz parte da casa, não é uma prova a passar.

Uma nota sobre o professor

Sempre que uma frustração persistir mais do que uma semana ou duas, é sinal para conversar com o professor. Não é queixa. É informação.

Os pais vêem seis ou sete horas por dia. O professor vê 30 a 40 minutos por semana. Há sinais que só vocês percebem. Trazer esses sinais ao professor, sem drama, é dos actos mais úteis que um encarregado de educação pratica ao longo do ano lectivo.

Frustração persistente com uma peça. Desmotivação vinda de fora. Mudança de rotina em casa. Um irmão que nasceu. Um período de exames. Tudo isto muda como o filho aparece na aula. Mas o professor só sabe se lhe contarem.

O que fica desta conversa

A frustração não é sinal de erro. É textura do processo. Aparece em todas as famílias, em todas as academias, em todos os instrumentos. O que distingue as famílias que atravessam bem estes momentos não é a ausência de frustração. É a linguagem que usam quando ela aparece, e a serenidade que conseguem manter enquanto ela dura.

Vale mais um pai calmo do que um pai que tem razão.


Gabriela Fernandes é pianista, formadora e co-fundadora d'Os Músicos. Trabalha educação musical na infância e adolescência, e forma pais e músicos noutras academias. Mais em gabrielafernandes.pt.

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Gabriela Fernandes
Sobre a autora

Gabriela Fernandes

Pianista, formadora e cofundadora d'Os Músicos, Academia de Música de Miraflores. Trabalha educação musical na infância e adolescência e forma pais, docentes e músicos em academias e escolas em Portugal.

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