Aprendizagem musical

Em novembro, o telefone toca mais

Em setembro as famílias chegam entusiasmadas. Instrumentos novos, horário na porta do frigorífico, uma vontade quase cerimonial de que isto corra bem. Em outubro ainda há deslumbramento. As primeiras peças, a primeira vez que uma criança se ouve a si própria a tocar uma melodia reconhecível, o adulto que sai de uma aula e manda mensagem ao sócio a dizer que "afinal, parece que vou mesmo aprender".

Gabriela Fernandes · · 5 min de leitura

Em novembro a história é outra. O telefone da Secretaria toca mais.

Nunca com más notícias. Com dúvidas.

"Acho que ele não está a progredir."

"Começou a dizer que já não quer ir à aula."

"Será que escolhemos o instrumento errado?"

"Nós pagamos para ela aprender e eu não a vejo a estudar em casa."

Em onze anos de academia, começámos a reconhecer este padrão como se fosse uma estação do ano. Novembro é o mês em que o encanto passa. E é precisamente aí que a aprendizagem começa a sério.

O que está mesmo a acontecer

O cérebro de quem aprende um instrumento faz um trabalho silencioso nas primeiras oito a dez semanas. Não é tempo perdido. É tempo de instalar a infraestrutura: ouvido para distinguir sons parecidos, mãos a reconhecer teclas que ainda não vêem, memória para encaixar nomes em símbolos. Nada disto se vê de fora. Nada disto se transforma, de um dia para o outro, numa música bonita.

Até cerca do final de outubro, a novidade compensa a falta de resultado visível. É um instrumento novo em casa. É uma sala nova. É um professor novo. O cérebro gosta da novidade e isso dá energia por si só.

Em novembro, a novidade acabou. O que fica é o trabalho. E o trabalho, quando ainda não dá música bonita a sério, parece pouco.

Para a criança (e para o adulto), isto traduz-se em "já não me apetece". Para os pais, traduz-se em "será que não é para ele?". Para quem está dentro da sala de aula, isto traduz-se em "é agora que começa a parte boa".

A parte boa não é a música bonita. É o momento em que o aluno deixa de estar deslumbrado e começa a estar comprometido. Dois estados muito diferentes. O primeiro dura semanas. O segundo pode durar uma vida.

Quatro perguntas antes de telefonar

Antes de ligar para a Secretaria ou de ter aquela conversa difícil ao jantar, há quatro perguntas que vale a pena fazer.

Primeira: o que mudou na semana passada? Dormiu bem? Houve testes? Houve zanga com o professor principal da escola? A música é um amplificador fiel de tudo o resto. Se a vida à volta aperta, a vontade de estudar aperta também. Isto quase nunca é sobre o instrumento.

Segunda: quando foi a última vez que o viste a tocar fora da aula, por iniciativa própria? Pode ter sido na semana passada. Pode ter sido num momento rápido, pegou no instrumento ao passar, tocou meia frase, pousou outra vez. Esses micro-momentos valem muito. Dizem-nos que o instrumento ainda tem lugar na vida dele. O que está em jogo é a disciplina de estudar, não a relação com a música.

Terceira: a queixa é diária ou é pontual? Uma criança que diz "não me apetece hoje" numa quarta-feira à tarde depois de um dia difícil é muito diferente de uma criança que diz "nunca mais quero ir" todos os dias há três semanas. A primeira pede paciência. A segunda pede conversa connosco.

Quarta: o que diz o professor? Esta é a pergunta mais útil e, estranhamente, a menos feita. Os professores vêem o aluno numa parte da vida que os pais não vêem: a aula. Vêem concentração, humor, resposta ao desafio. Vêem o progresso técnico, que nem sempre corresponde ao progresso musical, e vêem o progresso musical, que nem sempre corresponde ao progresso técnico. Um email curto a perguntar "como está?" vale mais do que semanas de observação própria em casa.

O que não ajuda

Há três respostas que, aparentemente razoáveis, costumam agravar a situação.

Dar um ultimato. "Ou tocas, ou desistes." Transforma a música numa dívida emocional. Mesmo que a criança decida ficar, fica por medo de desapontar, não por vontade de continuar. É o pior terreno possível para construir uma relação longa com um instrumento.

Comparar com outros. "O teu primo já toca uma música inteira." Qualquer frase assim corta a relação da criança com o próprio percurso. Deixa de estar a tocar para si e passa a estar a tocar para competir ou para se defender.

Tornar o estudo um castigo. "Se não estudas, não vês televisão." Ligar o estudo musical a um sistema de punições e recompensas transforma-o numa obrigação de curto prazo. Pode funcionar nos próximos quinze dias. Vai partir a relação daqui a dois anos.

O que ajuda

Rotina curta. Cinco minutos por dia, à mesma hora, todos os dias, é infinitamente mais poderoso do que uma hora ao sábado quando aparece a vontade. Nunca falha em novembro: as famílias que criam ritual de cinco minutos em frente ao instrumento, mesmo quando não há vontade, chegam a janeiro com uma relação mais calma.

Presença, não vigilância. Estar na mesma divisão quando a criança estuda, a fazer outra coisa qualquer. Não a corrigir. Não a avaliar. Só estar. Para muitas crianças, estudar sozinho é a parte mais difícil da aprendizagem, não a música em si.

Celebrar o processo. "Hoje tocaste cinco minutos. Boa." Em vez de "quando é que tocas a música inteira?". Pequeno sinal de reconhecimento todos os dias faz mais do que grandes elogios em dias de aula.

Falar com o professor cedo. Antes de a dúvida crescer em casa. Antes de a conversa com a criança se tornar tensa. Um email simples: "Como está? Em casa há dias difíceis. O que vê daí?". É quase sempre esclarecedor.

Uma nota final

Se estás a ler isto e reconheces alguma destas conversas em casa: estás no bom caminho. A dúvida de novembro é um sinal de que a aprendizagem está a acontecer, não o contrário. O que ela pede não é uma decisão. Pede tempo.

Em onze anos de academia, vimos muitas famílias desistir em novembro. Vimos muitas outras adiar a conversa para janeiro, atravessar o inverno com a rotina de cinco minutos, e descobrir em março que o filho afinal estava a tocar peças pequenas de que gostava. Nenhuma delas conseguiu prever, em novembro, qual das duas histórias ia ser a sua.

A boa notícia é esta: a decisão não precisa de ser tomada agora. Dezembro traz palco, janeiro traz recomeço, março traz os primeiros concertos. Há muitos pontos de referência pela frente que vão esclarecer o que, em novembro, parece opaco.

Entretanto, se tens dúvidas, telefona-nos ou envia um email. É para isso que a Secretaria existe. E se preferires conversar com o professor directamente, é só pedires que marcamos.

Em novembro o telefone toca mais. E ainda bem.

⁘
Gabriela Fernandes
Sobre a autora

Gabriela Fernandes

Pianista, formadora e cofundadora d'Os Músicos, Academia de Música de Miraflores. Trabalha educação musical na infância e adolescência e forma pais, docentes e músicos em academias e escolas em Portugal.

Próximo passo

Quer trazer estas conversas à sua entidade?