Aprender música como adulto é o contrário de uma resolução
Há cinco anos que dizes que vais começar.
Pode ser música, pode ser ginásio, pode ser inglês, pode ser escrever o livro. Em janeiro inscreves-te com entusiasmo. Em fevereiro faltas uma vez. Em março já desististe e acabaste por não dizer a ninguém.
Noventa por cento das resoluções de ano novo caem antes do fim de janeiro. Esta é a estatística que corre nos jornais todos os dezembros. É verdadeira. Mas, como quase todas as estatísticas verdadeiras, esconde mais do que mostra.
A pergunta certa não é porque é que falham as resoluções. É porque é que as outras aguentam.
O padrão das que resistem
Nas que resistem, aparece sempre a mesma coisa: estrutura externa. Não dependem só de ti. Alguém está à tua espera. Alguém te manda uma mensagem se faltas. Alguém olha para ti como se já contasse contigo.
A pessoa que quer correr sozinha às sete da manhã às vezes consegue, mas aguenta pouco tempo. A pessoa que combina correr às sete com uma amiga aguenta ano após ano. A diferença não está na vontade. Está no acordo com outra pessoa.
Aprender música como adulto cai nesta segunda categoria. Não é uma coisa que fazes sozinho, à hora que te apetece, se tiveres disposição. É uma hora na semana, à mesma hora, com um professor que te espera. Se faltas, telefonam. Se faltas três vezes, perguntam se está tudo bem.
É por isso que, de todas as resoluções de janeiro, a música tende a ser a que aguenta mais tempo. Não porque os adultos que a escolhem sejam mais disciplinados. Porque escolheram sem saber uma coisa que é diferente de todas as outras.
O que te surpreende quando começas
Em onze anos de academia, vimos entrar centenas de adultos. A maior parte com cinquenta e tal. Alguns com setenta. Uns começam do zero. Outros reatam depois de trinta anos de pausa. As histórias são semelhantes a um nível que ainda nos espanta.
Chegam a dizer que é "um sonho antigo". A frase sai muitas vezes. "Sempre quis aprender." "Em criança tive aulas uns meses, mas a minha mãe disse que era melhor desistir." "Prometi a mim próprio quando saí da universidade." "Vou fazer sessenta anos e decidi que ia ser agora."
E chegam, quase todos, com o mesmo receio. Será que ainda consigo? Será que o cérebro, nesta idade, aguenta aprender uma coisa nova?
A resposta curta é sim. A resposta longa é mais interessante.
Aprender música como adulto é diferente de aprender como criança
É diferente, mas não é pior. É só diferente.
Um adulto aprende mais devagar na parte técnica. Os dedos demoram mais a decorar uma sequência. A memória muscular leva mais tempo a instalar-se. Isto é facto.
Em compensação, um adulto aprende muito mais depressa na parte musical. Compreende o que o professor explica à primeira. Lê uma partitura com mais contexto. Percebe harmonia, estrutura, forma. Reconhece referências. Faz ligações que uma criança não tem como fazer.
Resultado: as crianças tocam melhor peças pequenas mais depressa. Os adultos chegam mais cedo a tocar peças inteiras, mesmo que de forma imperfeita. Não há aqui ganhador. São duas rotas diferentes para o mesmo sítio.
A única coisa que faz travão a um adulto não é a idade. É o perfeccionismo. É achar que, para começar, tem de já ser bom. É pensar que, se não toca bem no fim do primeiro mês, não serve. Nenhuma criança pensa assim. Nenhum adulto que persiste pensa assim muito tempo.
Por que é que a aula semanal muda tudo
Imagina que decides aprender guitarra sozinho em janeiro. Compras uma guitarra. Ligas um vídeo no YouTube. Tocas uma semana. Depois tens uma reunião tarde a meio da semana. Depois ficas constipado. Depois chega fevereiro.
Quando pegas na guitarra outra vez, está desafinada. Não te lembras onde tinhas chegado. Não há ninguém a dizer-te se estás a tocar bem ou mal. Começas de novo mas com menos entusiasmo. Até que, uma semana, não voltas a pegar nela. Nem mesmo em março.
Agora imagina que, em vez disso, te inscreves numa aula semanal. Quarta-feira às 20h. O professor sabe o teu nome. Vai preparar material para ti durante a semana. Se não apareces, nota.
Em fevereiro continuas a ir. Em março também. O cansaço de uma quarta-feira à noite não é suficiente para te fazer faltar — porque faltar significa desapontar alguém que já contou contigo. Em maio, de repente, estás a tocar músicas que no primeiro mês parecia impossível.
A diferença não está em ti. Está no sistema à tua volta.
O que tens de fazer em casa
Honestamente, pouco. Cinco a dez minutos por dia, numa cadeira em frente ao instrumento, chegam. Ainda melhor se forem antes do jantar, antes de uma série, antes de sentares no sofá para ler. A televisão espera. O jantar espera. A guitarra não.
Não te obrigues a estudar uma hora. Vais fazer uma vez em janeiro e desistir em fevereiro. Obriga-te a cinco minutos. Vais acabar a fazer vinte sem dar por isso, nos dias em que apanha o jeito. Vais fazer os cinco mesmo nos dias maus. E a continuidade é o que faz a música aterrar.
Em onze anos, vimos adultos a desistir. Quase sempre com a mesma frase: "não tenho disciplina para estudar sozinho em casa". É verdade. A maior parte das pessoas não tem. O que resolve isto não é mais disciplina. É menos ambição por dia. Cinco minutos é melhor do que uma hora planeada que nunca acontece.
E se já tiveste aulas em criança e desististe
Vais achar que és uma causa perdida. Vais lembrar-te da professora chata que te fez odiar a música. Vais achar que, se não aguentaste em criança, muito menos vais aguentar agora.
Vais estar enganado em quase tudo.
A verdade é que a maior parte das pessoas que teve aulas em criança e desistiu tem uma relação intacta com a música. Só não teve uma relação intacta com a aula. São duas coisas diferentes. Esquece a aula de criança. A aula de adulto é outra coisa. Mais honesta, mais negociada, mais tua.
E o facto de teres começado uma vez não é desperdício. Vais lembrar-te de coisas que achavas que tinhas esquecido. O ouvido lembra-se. Os dedos lembram-se. O cérebro faz atalhos invisíveis.
Antes de 31 de janeiro
Se chegaste até aqui, provavelmente foste algum dos exemplos acima. O que te sugerimos é simples.
Não te inscrevas em janeiro movido pela resolução. A resolução cai em fevereiro, como caíram todas.
Inscreve-te em janeiro porque percebeste que música é das poucas coisas na tua vida de adulto em que alguém está à tua espera uma vez por semana. É das poucas coisas em que não dependes só de ti. É das poucas coisas em que, se faltas, és notado.
Começa com uma aula experimental. Marca para a semana que vem, não para março. Vai sem compromisso. Se não gostares, não voltas. Se gostares, decides a seguir se avanças.
Em onze anos vimos os adultos que começam em janeiro continuar em junho. Vimos muitos deles continuar três anos depois, cinco anos depois. Chegam a uns recitais de dezembro em que são aplaudidos pelos próprios filhos.
Nenhum deles tinha disciplina especial em janeiro. Só se inscreveram para a semana a seguir e apareceram.
Gabriela Fernandes
Pianista, formadora e cofundadora d'Os Músicos, Academia de Música de Miraflores. Trabalha educação musical na infância e adolescência e forma pais, docentes e músicos em academias e escolas em Portugal.